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HISTÓRIAS DOS CARROS

História do Fusca – Segunda Guerra Mundial e a sobrevivência da Volkswagen

Introdução O automóvel que se tornaria símbolo da paz, da liberdade e da mobilidade mundial nasceu em um dos períodos mais turbulentos da história da humanidade. Durante a Segunda Guerra Mundial, o Volkswagen praticamente deixou de ser um carro civil para tornar-se base de importantes veículos militares. Ao final do conflito, a fábrica estava danificada, a Alemanha ocupada e poucos imaginavam que aquele pequeno automóvel ainda conquistaria o planeta. O sonho interrompido Quando os primeiros Volkswagen estavam prontos para iniciar sua produção em larga escala, a Europa caminhava rapidamente para um conflito de proporções inéditas. Em 1º de setembro de 1939, a invasão da Polônia marcou o início da Segunda Guerra Mundial. Quase imediatamente, toda a indústria alemã foi reorganizada para atender às necessidades militares. A gigantesca fábrica recém-construída em Wolfsburg deixou de preparar linhas de montagem para automóveis civis e passou a fabricar veículos destinados ao Exército. Milhares de trabalhadores que aguardavam seu carro do povo jamais receberiam o veículo pelo qual haviam economizado durante anos. O projeto civil foi praticamente congelado. Nasce o Kübelwagen O primeiro derivado militar do Volkswagen foi o Typ 82 Kübelwagen. Visualmente, lembrava um jipe. Sua carroceria era aberta, extremamente simples e leve. Apesar da aparência modesta, possuía características impressionantes para a época. O motor permanecia instalado na traseira. Era um boxer de quatro cilindros refrigerado a ar. Isso eliminava um dos maiores problemas enfrentados por muitos veículos militares da época: o superaquecimento. Como não utilizava radiador nem líquido de arrefecimento, o Kübelwagen podia operar em desertos, regiões frias e áreas com pouca estrutura de manutenção. Essa simplicidade tornou-se uma de suas maiores vantagens. Um jipe diferente Comparado ao Jeep Willys americano, o Kübelwagen possuía uma solução curiosa: não tinha tração nas quatro rodas. Mesmo assim, conseguia bom desempenho fora de estrada graças a uma combinação de fatores: peso extremamente reduzido; suspensão independente nas quatro rodas; grande curso da suspensão; motor traseiro, que aumentava a tração sobre as rodas motrizes; diferencial autoblocante em algumas versões. Essas características permitiam atravessar terrenos arenosos, lama e neve com desempenho surpreendente. Ao longo da guerra, foram produzidos aproximadamente 50 mil Kübelwagen, utilizados em diferentes frentes de combate. O Schwimmwagen Se o Kübelwagen já parecia inovador, o Volkswagen Typ 166 Schwimmwagen era ainda mais extraordinário. Surgido em 1942, tratava-se de um veículo anfíbio. Sua carroceria era vedada e, na traseira, havia uma hélice retrátil. Ao entrar na água, o motorista abaixava a hélice. O próprio motor boxer movimentava tanto as rodas quanto o sistema de propulsão aquática. Era capaz de navegar em rios, lagos e áreas alagadas. Poucos veículos militares da época possuíam tamanha versatilidade. Foram produzidas cerca de 14 mil unidades, tornando o Schwimmwagen o veículo anfíbio militar mais produzido da história. Outros derivados militares Além do Kübelwagen e do Schwimmwagen, a Volkswagen desenvolveu outros veículos especiais. Kommandeurwagen O Kommandeurwagen misturava a carroceria do Fusca com componentes do Kübelwagen. Era utilizado por oficiais de alta patente, possuía melhor acabamento interno e sistema de tração reforçado. Typ 87 O Typ 87 era uma versão civil adaptada para uso militar, com componentes específicos para operações em terrenos difíceis. Protótipos experimentais Diversas versões experimentais nunca chegaram à produção em série. Algumas utilizavam tração integral, outras receberam motores ou soluções mecânicas específicas. Esses projetos serviram como laboratório para soluções que ajudariam a aperfeiçoar componentes utilizados posteriormente. A produção durante a guerra Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, quase não existiram Fuscas civis durante a Segunda Guerra Mundial. A maior parte da capacidade industrial da Volkswagen foi direcionada para: veículos militares; componentes mecânicos; peças aeronáuticas; equipamentos industriais. Entre 1939 e 1945, foram produzidos apenas algumas centenas de exemplares civis do Volkswagen, geralmente destinados a autoridades ou fins experimentais. O sonho do automóvel popular havia sido completamente interrompido. Trabalho forçado Um dos capítulos mais delicados da história da Volkswagen envolve a utilização de trabalhadores forçados. Com o avanço da guerra e a escassez de mão de obra, milhares de pessoas oriundas de países ocupados foram obrigadas a trabalhar na fábrica de Wolfsburg. Estima-se que mais de 20 mil trabalhadores estrangeiros e prisioneiros de guerra tenham passado pela fábrica durante o conflito. As condições eram extremamente difíceis. Décadas mais tarde, a própria Volkswagen reconheceu esse período de sua história, financiando pesquisas históricas, memoriais e iniciativas de compensação às vítimas. Esse tema deve ser tratado com responsabilidade, pois faz parte da história da empresa, da fábrica e do próprio contexto em que o Volkswagen nasceu. Os bombardeios A partir de 1944, a superioridade aérea dos Aliados intensificou os bombardeios sobre o território alemão. A fábrica da Volkswagen tornou-se um alvo estratégico. Diversas áreas industriais foram atingidas, linhas de montagem foram destruídas e equipamentos sofreram danos severos. Ao final da guerra, boa parte da infraestrutura encontrava-se inutilizada. Além disso, a Alemanha enfrentava falta de energia, escassez de alimentos e colapso dos sistemas de transporte. O fim da guerra Em maio de 1945, a Alemanha assinou sua rendição. A Segunda Guerra Mundial havia terminado. A fábrica da Volkswagen ficou localizada dentro da zona de ocupação britânica. Naquele momento, praticamente ninguém acreditava que ela voltaria a produzir automóveis. Os estudos iniciais feitos pelos Aliados apontavam que: o projeto Volkswagen parecia tecnologicamente ultrapassado; o mercado europeu precisava de veículos mais modernos; nenhuma fabricante estrangeira demonstrava interesse em assumir a planta industrial. Alguns relatórios chegaram a recomendar o desmonte completo da fábrica. Por muito pouco, a história do Fusca terminaria ali. A decisão que mudou a história Foi nesse momento que entrou em cena um personagem pouco conhecido pelo grande público, mas decisivo para a sobrevivência da Volkswagen: Major Ivan Hirst. Engenheiro do Exército Britânico, Hirst recebeu a missão de administrar a fábrica ocupada. Ao contrário de muitos especialistas da época, ele enxergou potencial naquele pequeno automóvel. Percebeu que, apesar dos danos, a estrutura industrial ainda poderia ser recuperada. Também compreendeu que o Volkswagen era simples, robusto e exatamente o tipo de veículo de que a Europa devastada precisava para reconstruir sua economia. Essa visão mudaria completamente o destino da empresa. Curiosidades O Kübelwagen utilizava o mesmo conceito mecânico básico que daria origem ao Fusca civil. O Schwimmwagen continua sendo o veículo anfíbio militar mais produzido da história. A fábrica de Wolfsburg quase foi desmontada após a guerra. Muitos especialistas britânicos classificaram o Volkswagen como um projeto sem futuro. Se a recomendação inicial tivesse sido seguida, a Volkswagen provavelmente jamais existiria como conhecemos hoje. O legado inesperado É curioso imaginar que um automóvel criado para a paz tenha sobrevivido justamente por causa da guerra. Os anos de conflito interromperam seu lançamento, destruíram parte da fábrica e desviaram completamente seu propósito original. Entretanto, também serviram como um laboratório extremo de durabilidade. Os veículos militares derivados do Volkswagen demonstraram resistência em desertos, montanhas, neve e lama. Essas experiências contribuíram para aperfeiçoar componentes que mais tarde seriam incorporados ao Fusca civil. Quando a paz finalmente retornou à Europa, o pequeno carro estava pronto para iniciar sua verdadeira missão: colocar milhões de famílias sobre quatro rodas. Fusca antigo à venda Veja anúncios recentes de Volkswagen Fusca antigo à venda no portal Carro Antigo à Venda. O contato é feito diretamente com o proprietário, anunciante ou loja associada. O site não realiza a venda dos veículos; a negociação acontece diretamente entre as partes. Continua na Parte 6 No próximo capítulo, conheceremos a história do Major Ivan Hirst, o engenheiro britânico que ajudou a salvar a Volkswagen da destruição. A Parte 6 deve mostrar como ele reorganizou a fábrica, convenceu o governo militar britânico a produzir automóveis novamente, obteve a primeira encomenda de 20 mil veículos e lançou as bases para o renascimento da Volkswagen. Sem sua intervenção, é bastante provável que o Fusca nunca tivesse chegado ao Brasil e jamais se tornasse um dos automóveis mais famosos do mundo. Continuar lendo a História do Fusca Capítulo anterior: História do Fusca – KdF-Wagen e o nascimento oficial do Volkswagen Voltar ao índice da História do Fusca Próximo capítulo: História do Fusca – Ivan Hirst, o homem que salvou a Volkswagen