Motor do Fusca – História e engenharia do boxer refrigerado a ar

Introdução

Poucos motores permaneceram em produção por tanto tempo quanto o boxer refrigerado a ar da Volkswagen.

Simples, robusto, econômico e extraordinariamente confiável, ele impulsionou milhões de automóveis em todos os continentes e tornou-se um dos maiores símbolos da engenharia automobilística do século XX.

O coração do Fusca

Quando se fala em Volkswagen Fusca, é impossível não pensar imediatamente em seu motor.

Seu som característico, sua simplicidade, sua resistência e seu posicionamento incomum fazem parte da identidade do carro.

Enquanto praticamente todos os automóveis utilizavam motores dianteiros refrigerados a água, o Fusca seguia um caminho diferente.

Seu conjunto mecânico reunia soluções consideradas ousadas para a época:

  • motor traseiro;
  • tração traseira;
  • refrigeração a ar;
  • quatro cilindros opostos horizontalmente;
  • bloco em liga leve;
  • suspensão independente.

Essa combinação faria do Fusca um dos automóveis mais robustos já produzidos.

O que significa motor boxer?

O nome boxer deriva do movimento realizado pelos pistões.

Ao contrário de um motor convencional em linha, onde os pistões sobem e descem paralelamente, no boxer eles trabalham horizontalmente, em sentidos opostos.

Visualmente, o movimento lembra uma luta de boxe: enquanto um pistão avança, o outro recua.

Daí surgiu o nome.

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Centro de gravidade extremamente baixo

Como os cilindros ficam deitados, o motor possui pequena altura.

Isso reduz o centro de gravidade do automóvel e traz consequências importantes:

  • melhor estabilidade;
  • menor inclinação em curvas;
  • melhor distribuição de peso;
  • menor vibração.

Décadas depois, Porsche e Subaru continuariam utilizando exatamente esse princípio.

Equilíbrio natural

Outra vantagem do boxer é o equilíbrio dinâmico.

Os movimentos dos pistões praticamente anulam as vibrações uns dos outros. Por isso, o motor funciona de forma extremamente suave.

Em muitos motores convencionais são necessários eixos balanceadores. No boxer, o próprio desenho do motor faz esse trabalho.

Refrigeração a ar

Talvez nenhuma característica seja tão famosa quanto a refrigeração a ar.

O Fusca não possui:

  • radiador;
  • bomba d'água;
  • mangueiras;
  • reservatório de expansão;
  • líquido de arrefecimento.

Todo o resfriamento é feito pelo ar.

Uma grande turbina movimentada pelo próprio motor envia ar através de dutos metálicos. Esse ar passa pelas aletas existentes nos cilindros e cabeçotes, dissipando o calor.

A simplicidade impressiona.

Por que a Volkswagen escolheu esse sistema?

Na década de 1930, existiam várias razões para adotar refrigeração a ar:

  • era mais simples;
  • reduzia peso;
  • eliminava vazamentos;
  • não havia risco de congelamento em países frios;
  • funcionava bem em regiões desérticas;
  • exigia pouca manutenção.

Para um automóvel destinado ao uso popular, essas vantagens eram enormes.

Mas existiam desvantagens?

Sim. Toda solução técnica envolve compromissos.

Motores refrigerados a ar normalmente apresentam:

  • maior ruído mecânico;
  • controle térmico menos preciso;
  • aquecimento interno dependente da temperatura do motor;
  • necessidade de perfeito funcionamento da turbina.

Mesmo assim, para a tecnologia disponível na década de 1930, a escolha foi extremamente inteligente.

A posição traseira

Outra decisão revolucionária foi instalar o motor atrás do eixo traseiro.

Isso trouxe diversos benefícios.

Excelente tração

Grande parte do peso do automóvel concentra-se sobre as rodas motrizes.

Como resultado, mesmo sem tração nas quatro rodas, o Fusca consegue desempenho surpreendente em areia, barro, neve e subidas.

Muitos proprietários descobriram isso na prática.

Transmissão simplificada

Como motor e câmbio ficam praticamente juntos, a transmissão torna-se extremamente compacta.

Não existe um longo eixo cardã atravessando o veículo. Isso reduz peso, ruídos e perdas mecânicas.

Mais espaço interno

Embora o motor ocupe a parte traseira, a ausência de um conjunto mecânico na dianteira permitiu criar porta-malas frontal, estepe sob o capô e tanque de combustível dianteiro.

A distribuição do espaço era muito eficiente para um automóvel compacto.

O sistema de lubrificação

O motor boxer Volkswagen utiliza lubrificação por pressão.

Uma bomba de óleo envia lubrificante para:

  • mancais do virabrequim;
  • bielas;
  • comando de válvulas;
  • balancins.

Posteriormente, o óleo retorna ao cárter.

A simplicidade do sistema contribuiu enormemente para sua confiabilidade.

O comando de válvulas

Diferentemente de motores modernos com comando no cabeçote, o boxer Volkswagen utiliza comando localizado no bloco.

O movimento chega às válvulas através de:

  • tuchos;
  • varetas;
  • balancins.

É um sistema extremamente robusto e permite regulagem relativamente simples das válvulas.

Milhões de mecânicos aprenderam esse procedimento praticamente de ouvido.

Alimentação

Ao longo da produção foram utilizados diversos carburadores.

Entre os mais conhecidos estão:

  • Solex 28 PCI;
  • Solex 30 PICT;
  • Solex 31 PICT;
  • Solex H30;
  • Solex 34 PICT.

Cada evolução buscava melhor economia, partida mais fácil, menor emissão de poluentes e maior desempenho.

Nas últimas gerações mexicanas surgiria finalmente a injeção eletrônica.

O sistema elétrico

Inicialmente todos os Fuscas utilizavam sistema elétrico de 6 volts.

Durante décadas isso foi suficiente. Entretanto, o aumento da demanda elétrica levou à adoção do sistema de 12 volts.

As vantagens eram evidentes:

  • partida mais eficiente;
  • iluminação superior;
  • maior capacidade de alimentação de acessórios;
  • alternadores mais modernos.

Essa mudança ocorreu gradualmente conforme o mercado.

Os motores do Fusca

Ao longo da história surgiram diversas cilindradas.

985 cm³

Utilizado nos primeiros protótipos.

1.092 cm³

Presente nas primeiras versões comerciais.

1.131 cm³

Associado aos modelos Split Window.

1.192 cm³

O famoso motor 1200, responsável pela popularização mundial do Fusca.

1.285 cm³

Principal motor brasileiro em grande parte da trajetória nacional do modelo.

1.493 cm³

Motor do Fuscão 1500, com muito mais torque e excelente comportamento para estrada.

1.584 cm³

O ápice da evolução do boxer nacional em uso amplo, com ótimo equilíbrio entre força, durabilidade e facilidade de manutenção.

1600S

Versão com dupla carburação, maior potência e proposta mais esportiva.

Por que o Fusca dura tanto?

Essa talvez seja uma das perguntas mais frequentes.

A resposta está na combinação de vários fatores:

  • projeto simples;
  • poucas peças móveis;
  • baixo peso;
  • boa lubrificação;
  • baixa rotação;
  • materiais de boa qualidade;
  • facilidade de manutenção.

Quando bem cuidado, não era raro encontrar motores superando 300 mil quilômetros antes de uma retífica completa. Alguns ultrapassaram 500 mil quilômetros, especialmente em uso rodoviário.

O som do Fusca

Poucos automóveis possuem uma assinatura sonora tão marcante.

O ronco característico resulta da combinação de:

  • motor boxer;
  • escapamento curto;
  • ordem de ignição específica;
  • refrigeração por turbina.

Até hoje, muitos apaixonados conseguem identificar um Fusca apenas pelo som do motor.

Curiosidades

O motor do Fusca pesa aproximadamente 90 a 100 kg, dependendo da versão.

O boxer Volkswagen foi utilizado também na Kombi, Karmann-Ghia, Brasília, Variant, TL, SP2 e em diversos veículos especiais.

O Porsche 356 utilizava arquitetura derivada do boxer Volkswagen, embora profundamente modificada.

Milhares de aeronaves experimentais utilizam motores Volkswagen adaptados.

O boxer Volkswagen tornou-se um dos motores mais preparados do mundo para competições de arrancada, Baja e Fórmula Vee.

Um projeto atemporal

Mais de oito décadas após seu desenvolvimento, o motor boxer do Fusca continua sendo admirado por engenheiros e entusiastas.

Sua simplicidade é, ao mesmo tempo, sua maior virtude e sua maior lição: um projeto bem concebido pode atravessar gerações sem perder relevância.

Enquanto a indústria automobilística avançava rumo à eletrônica, aos motores multiválvulas e à injeção eletrônica, o pequeno boxer refrigerado a ar permaneceu fiel à filosofia que o consagrou: fazer muito com pouco.

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Continua na Parte 14

No próximo capítulo, iniciaremos uma análise da evolução da carroceria, do chassi e da suspensão do Fusca.

A Parte 14 deve mostrar como pequenas mudanças estruturais melhoraram a dirigibilidade, a segurança e o conforto ao longo das décadas, além de detalhar a evolução dos painéis, bancos, vidros, para-choques, lanternas e demais componentes externos.

Esse será um dos capítulos mais ricos para restauradores e para quem deseja identificar corretamente cada ano-modelo do Volkswagen Fusca.

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